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A terra do eucalipto


Nenhuma árvore é tão plantada nos reflorestamentos do Brasil quanto o eucalipto. Faz um século que ela começou a ser cultivada comercialmente por aqui. As sementes vieram da Austrália, pátria do eucalipto, como contou uma reportagem especial do Globo Rural em 1992.

A Austrália tem uma pequena área de floresta. São só 14% do território, concentrados em uma faixa que acompanha a costa no Leste e no Norte. Oitenta por cento das árvores eucaliptos. Existem mais de 600 espécies, espalhadas pelas várias regiões e climas do país.

Condições de clima e localização geográficas diferentes criaram árvores também diferentes umas das outras. Mas nas florestas nativas nunca se encontram muitas dessas espécies reunidas de uma só vez.

Em geral, cada floresta tem só três ou quatro tipos de eucaliptos diferentes. Para se ver uma diversidade maior é preciso ir ao Jardim Botânico de Camberra, a capital da Austrália. Mesmo no lugar há apenas cerca de cem das mais de 600 espécies. De eucalipto. Isso já é suficiente para dar muitas surpresas. Há eucaliptos completamente diferentes dos vistos no Brasil. São os anões.

No Jardim Botânico aparecem outras variações. Tem muitos troncos saindo de uma mesma raiz, arvorezinhas pequenas e finas ou uma bem grande, clara e cheia de galho. O que reúne tantas plantas diferentes no gênero eucalipto são as flores. Abertas, elas podem variar de cor. Mas em botão todas têm uma capinha protetora. Eucalipto quer dizer bem coberto. Os frutos que vêm depois também são parecidos em todas as espécies. Eles têm sempre um formato de cálice.

As florestas nativas ganharam maior importância depois que o eucalipto começou a ser plantado com fins econômicos em outras partes do mundo. A floresta na costa Leste da Austrália é muito procurada para a coleta de sementes.

Um tiro assustador e um homem, que parece assustador, não representam nenhuma ameaça para a fauna australiana. Ele não é um caçador, mas um colhedor de sementes de eucalipto. Na Austrália as sementes são colhidas a tiro.

O colhedor de sementes Dave Lea explicou que tem sempre de dar mais de um tiro porque derruba galhos grandes. Os pequenos ficariam presos na folhagem. A árvore não fica prejudicada porque se regenera.

As sementes australianas de eucalipto são usadas para pesquisa no mundo inteiro. A coleta no dia da reportagem foi acompanhada por um grupo de engenheiros florestais e agrônomos de empresas brasileiras.

Na Austrália um colhedor de sementes como Dave Lea precisa entender de árvores e ser registrado no serviço florestal. Depois de derrubar o galho, ele anota os dados da árvore: a espécie, o tamanho, a idade, tudo. Então, vem o trabalho de recolher os ramos com os frutos. Da floresta os ramos vão para a estufa. É para secar os frutos de eucalipto e liberar as sementes que estão dentro deles.

Quase todas as florestas da Austrália pertencem ao Estado. Tudo que se recolhe nelas vai para uma central em Camberra, a capital do país.

Um centro faz parte da grande organização de pesquisa da Austrália que abrange todos os ramos da tecnologia moderna e emprega 2,5 mil cientistas. As sementes que vão para lá recebem tratamento e são testadas quanto à germinação. Depois, são registradas no computador.

O grande movimento de brasileiros nesse serviço foi no final de década de 70 e começo da década de 80. Esse movimento diminuiu nos últimos tempos, como contou o engenheiro florestal Steve Midgley, chefe do serviço de entrega de sementes.

O engenheiro contou que o movimento de brasileiros diminuiu porque eles já têm a maior parte do material que precisam para a pesquisa. Hoje, outros países já seguem o exemplo do Brasil, como a China, a Indonésia e a Índia.

Em 1913, um técnico brasileiro foi à Austrália a procura de sementes de eucalipto. As sementes que ele levou acabaram sendo fundamentais e decisivas para a história do eucalipto no Brasil. Ainda a registros na Austrália da passagem do engenheiro agrônomo Edmundo Navarro de Andrade pelo país.

Sidnei é a maior e mais antiga cidade da Austrália. O Jardim Botânico fica em um lugar privilegiado, bem na entrada da baia de Sidnei. Foi instalado na área em que a cidade nasceu e ainda conserva uma fileira de árvores com 200 anos de idade. Elas ladeavam originalmente a primeira rua do mundo arborizada com eucalipto.

Foi do Jardim Botânico que Navarro de Andrade levou para o Brasil as sementes de 150 espécies de eucalipto. Ele era o encarregado de produzir lenha para a Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Testou dezenas de espécies brasileiras e estrangeiras e optou pelo eucalipto, árvore de crescimento mais rápido.

No horto de Rio Claro, em São Paulo, as árvores mais antigas foram plantadas por Navarro de Andrade com as sementes que ele trouxe da Austrália. Esse foi o ponto de partida de um grande empreendimento que transformou o Brasil no maior plantador de eucalipto do mundo, com uma tecnologia respeitada internacionalmente.

Do eucalipto se tira lenha para a padaria e carvão para a indústria siderúrgica. Sua madeira usada para fazer móvel, na construção civil em na fabricação de papel e celulose. Uma enorme riqueza que cresceu de sementes colhidas no outro lado do mundo.

As plantações de eucalipto ocupam hoje, no Brasil, três milhões de hectares, sessenta por cento da área total dos reflorestamentos comerciais

 
Rogério G. Moura

Engenheiro Florestal


Valor bilionário da madeira levou ao fim de 14% da floresta em 30 anos

O Estado de S. Paulo, 27/02/2005 - NACIONAL *Valor bilionário da madeira levou ao fim de 14% da floresta em 30 anos*

*E pelo menos metade da madeira extraída vem de derrubadas feitas à margem da lei, segundo diretor de florestas do Ibama*

*Roldão Arruda*

O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), uma instituição de pesquisa sem fins lucrativos e voltada paraa promoção do desenvolvimento sustentável, vai divulgar nos próximos dias uma nova versão do estudo /Fatos Florestais //da Amazônia/,apontado como um dos mais completos sobre a exploração da madeira na região. Ele contém notícias ruins, algumas até assustadoras, e notícias boas. Também confirma que o País está atolado num imbróglio monumental nesse setor.

Para se ter uma idéia, o mesmo Estado brasileiro que numa ponta da Amazônia cria reservas e mobiliza tropas para proteger a floresta tropical após o assassinato de uma missionária, em outra dá incentivos para derrubá-la. O estudo do Imazon deve mostrar que 14% da floresta amazônica veio abaixo nos últimos 30 anos - o que dá a média de 0,5% ao ano. Na Amazônia Legal, com 5 milhões de quilômetros quadrados, quase 60%do território brasileiro, isso representa muito. "É um Estado de Alagoas inteiro devastado por ano", diz o ecólogo Adalberto Veríssimo, do Imazon.

Nem tudo que é devastado é aproveitado como madeira. Mesmo assim, de acordo com estimativas da organização, confirmadas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), cerca de 28 milhões de metros cúbicos de madeira deixaram a Amazônia no ano passado. Se o transporte dessa carga fosse feito apenas em caminhões de carroceria comum, com capacidade para 17 metros cúbicos, seriam necessárias 4.500 viagens por dia durante o ano inteiro, incluindo sábados e domingos. Pelo menos metade da madeira - 14 milhões de metros cúbicos - vem de derrubadas feitas à margem da lei. "O desmatamento ilegal já está chegando a 55% do total", alerta o diretor de florestas do Ibama, Antonio Carlos Hummel.

Legais ou ilegais, as toras que saem da floresta tropical estão empurrando as engrenagens de uma indústria cada vez mais próspera. O caso do Pará, que responde sozinho por 40% da produção madeireira da Amazônia, é exemplar. A madeira e os produtos obtidos a partir dela já figuram em segundo lugar na lista dos produtos exportados pelo Estado. Só perde para os fabulosos negócios com minérios.

Os efeitos são visíveis também na balança comercial do País. As exportações de madeira sólida e dos produtos dela originários somaram US$ 3,8 bilhões em 2004 - uma variação de 44,4% em relação aos US$ 2,6 bilhões de 2003. Isso se deve em grande parte à Amazônia, de onde provém 80% da madeira nativa extraída no País, excluindo lenha e carvão.

EMPREGOS

Estima-se que nos nove Estados amazônicos a atividade madeireira movimenta quase 2.600 empresas e emprega cerca de 350 mil pessoas. "As serrarias constituem um dos negócios mais rentáveis da região, com uma taxa de retorno em torno de 60% - quase quatro vezes maior que a da pecuária", diz Veríssimo.

O negócio é tão bom que a Cikel Brasil Verde, empresa que lidera as exportações no Pará, trabalhando apenas com madeira certificada pelo Ibama, deixou de lado a atividade pecuária. E é aqui que começa a parte das boas notícias. Ou das boas possibilidades.

Cresce a cada ano a quantidade de empresários interessados em trabalhar dentro dos princípios do desenvolvimentosustentado - que pressupõe a exploração da madeira de forma controlada, sem a degradação ambiental. Em 1997, quando o governo pôs à disposição o chamado selo verde, foram certificados 80 mil hectares de florestas na Amazônia. Hoje são 1,8 milhão de hectares - o que coloca o País em 5.º lugar no ranking dos países tropicais com áreas certificadas de acordo com padrões internacionais.

É pouco, quase nada, na vastidão amazônica, mas, segundo especialistas de organizações nãogovernamentais e do governo, indica um caminho para conter a devastação. Atualmente quase 80% da área devastada na Amazônia é ocupadacoma pecuária, estimulada pelo governo.

PASTAGEM

Ao chegar à região, os donos da terra oferecem a madeira que encontram às serrarias. Com isso formam seu primeiro capital e muitas vezes também ganham a primeira estrada para sua propriedade: estima-se que os madeireiros já abriram cerca de 3 mil quilômetros de estradas para tirar da mata a matéria-prima de seu negócio. Depois disso, ateia-se fogo na área e forma-se o pasto.

Para os ecologistas, seria melhor se o governo parasse de dar incentivos para o avanço da fronteira agrícola e estimulasse a exploração das florestas por meio do manejo sustentável. "Estamos desperdiçando recursos de maneira absurda", acusa Paulo Adário, do Greenpeace. Ele observa que a madeira é considerada uma matéria-prima tão barata e tão disponível, que os índices de desperdício nesse setor seriam inadmissíveis em qualquer outra atividade empresarial: "De cada dez árvores derrubadas, só três são aproveitadas. Há casos em que cortam as árvores no meio do mato, para buscar depois, e esquecem onde ela caiu. Outros demoram tanto que a árvore acaba consumida por insetos. Outros, por falta de técnica adequada, deixam a árvore rachar quando cai, tornando-a inaproveitável. Boa parte se perde no pátio das serrarias, onde, por falta de estufas, a madeira empena ou racha."

PASTO

Segundo os especialistas, isso não ocorre quando se trata de madeira certificada, explorada com técnicas mais modernas e menos desperdício, por causa do custo mais elevado e por exigências dos importadores, cada vez mais preocupados com a questão ambiental. "Se o governo não oferecer alternativas econômicas para a Amazônia, ela vira pasto", diz Veríssimo.

Para a Associação das Indústrias Exportadoras de Madeira do Pará (Aimex), o governo deveria criar florestas de produção. Seriamflorestas do Estado ou da União, ou de um município, dadas como uma concessão às empresas.

Qualquer solução para o problema madeireiro, porém, deve ser precedido de um vasto processo de regularização fundiária. O grande problema da Amazônia ainda é a falta de definição legal de propriedade: quase metade da região é de terra devoluta ou sem titulação definida, o que ocasiona os intermináveis conflitos

Fonte: RedeFlorestal-rj


...O QUE É O MANEJO FLORESTAL?

O código florestal brasileiro de 1965 (artigo 15) definiu que as florestas da Amazônia só poderiam ser utilizadas através de planos de manejo.

Em 1989, a Ordem de Serviço 001-89/IBAMA?DIREN definiu um extensivo protocolo de plano de manejo, incluindo especificação de técnicas de extração para diminuir os danos à floresta, estimativas do volume a ser explorado, tratamentos silviculturais e métodos de monitoramento do desenvolvimento da floresta após a exploração. O ciclo de corte mínimo foi fixado, na época, em 30 anos.

Em resumo, o Manejo Florestal é um conjunto de técnicas empregadas para colher cuidadosamente parte das árvores grandes de tal maneira que as menores, a serem colhidas futuramente, sejam protegidas. Com a adoção do manejo a produção de madeira pode ser contínua ao longo dos anos.


POR QUE MANEJAR FLORESTAS?

As principais razões para manejar a floresta são:

  • Continuidade da produção- A adoção do manejo garante a produção de madeira na área indefinidamente, e requer a metade do tempo necessário na exploração não manejada.

  • Rentabilidade- Os benefícios econômicos do manejo superam os custos. Tais benefícios decorrem do aumento da produtividade do trabalho e da redução dos desperdícios de madeira.

  • Segurança de trabalho- As técnicas de manejo diminuem drasticamente os riscosde acidentes de trabalho. No Projeto Piloto de Manejo Florestal (Imazon/WWF), os riscos de acidentes durante o corte na operação manejada foram 17 vezes menor se comparado às situações de perigo na exploração predatória.

  • Respeito à lei - Manejo florestal é obrigatório por lei. As empresas que não fazem manejo estão sujeitas a diversas penas. Embora, a ação fiscalizatória tenha sido pouca efetiva até o momento, é certo que essa situação vai mudar. Recentemente, tem aumentado as pressões da sociedade para que as leis ambientais e florestais sejam cumpridas.

  • Oportunidades de mercado- As empresas que adotam um bom manejo são fortes candidatas a obter um "selo verde". Como a certificação é uma exigência cada vez maior dos compradores de madeira, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, as empresas que tiverem um selo verde, provando a autenticidade da origem manejada de sua madeira, poderão ter maiores facilidades de comercialização no mercado internacional.

  • Conservação florestal- O manejo da floresta garante a cobertura florestal da área, retém a maior parte da diversidade vegetal original e pode ter impactos pequenos sobre a fauna, se comparado à exploração não manejada.

  • Serviços ambientais- As florestas manejadas prestam serviços para o equilíbrio do clima regional e global, especialmente pela manutenção do ciclo hidrológico e retenção de carbono.
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Fonte: www.manejoflorestal.org.br